![[Foto: Sergio Fonseca]](fotos/42_1755-mesa-fabro-todos-350pml.jpg)
Domingo
de sol na Bienal do Livro. Um debate no auditório
Machado de Assis, Riocentro reuniu convidados muito diferentes
para falar do tema Líquido e certo - o
jovem na ordem do dia. Abaixo, algumas falas
capturadas:
Zíbia
Gasparetto:
Meu
nome é Zibia Gasparetto, eu sou médium,
eu sou escritora, eu sou empresária, eu sou várias
coisas, mas inclusive uma pessoa que busca viver melhor,
a tornar a nossa vida mais alegre, mais feliz, mais produtiva.
Os pais desejam que seus filhos sejam “um bom rapaz”,
“uma boa moça”, mas para isso é
preciso que os pais sejam bons.
Ana
Beatriz Silva:
Ser
jovem hoje em dia é muito difícil. O mundo
que estamos dando para eles é pior, mais competitivo,
com mais exigências. Os jovens estão ficando
doentes muito mais cedo. É preciso ensinar o jovem
a ser criativo. A criatividade hoje é a matéria
prima da nova economia que está aí. Não
adianta o jovem estar muito bem formado, muito bem estruturado,
se ele não tiver capacidade para transformar todo
o arsenal de informação que foi dado para
fazer descobertas, posicionamentos que sejam alternativos.
Para ser criativo não basta a informação,
precisa se ter paixão pelo que se faz. É
preciso identificar o talento especial que ele tem, desde
cedo.
Içami
Tiba:
Nós
deixamos de ponta-cabeça a educação.
Acabamos com o machismo, a mulher cresceu, começou
a trabalhar, começou a dizer para o marido “não”
(olha que coisa feroz!). Então hoje existem homens
largados, homem que ninguém quer (antigamente era
a mulher largada). Antes, tínhamos a imagem do
macho alfa, aquele que manda (nosso pai): paciência
curta, voz grossa e mão pesada. Naquele tempo,
ele comia a melhor parte. Por exemplo, o frango: peito,
coxa, asa e pescoço. Quem comia peito e coxa? O
pai. Sobrava o que para nós (filhos)? Asa e pescoço.
Aí a nossa geração cresceu e passou
a pensar: "puxa, eu quando tinha sua idade não
podia falar, não podia isso, não podia aquilo,
pois então os meus filhos vão comer peito
e coxa!". Novamente: sobrou o que pra nós?
Então nós somos uma geração
de ferrados criados a asa e pescoço e estamos comendo
ainda asa e pescoço. Onde foi que nós nos
perdemos que de tanto amar os filhos querendo dar a eles
autonomia, nós fizemos das vontades irracionais
a soberania? Não existe "aborrecente"
a menos que ele já tenha sido criOnça.
Fabrício
Carpinejar:
Eu
não sou tão pessimista. Eu pegava uma parte
mais nobre da carne, eu não sou dessa geração
ferrada. Talvez eu seja a geração que ferra.
Vou citar um exemplo do meu cotidiano. Eu sou poeta, cronista,
eu tenho 11 livros publicados, sou pai de dois filhos,
tenho 34 anos. Eu estava no hotel com minha filha e ela
disse: "acabou a água". Eu respondi:
"pega da torneira". Óbvio que eu quis
ser avarento, mas eu também não estava com
vontade de ir até lá pedir água...
a gente já estava saindo! Na hora de pagar a conta
eu perguntei a ela quanto a gente tinha consumido e ela
respondeu: "foram três águas e uma da
torneira". Eu fiquei constrangido porque eu queria
defender uma imagem da família. Mas era ridículo
eu ficar constrangido. Eu devia ter dito: "sim, uma
água da torneira!" Porque eu acho que na nossa
própria relação com o dia-a-dia nós
também precisamos da água que não
é filtrada, também precisamos das impurezas
e dos defeitos.
Eu
perguntei para o meu filho o que ele quer ser quando crescer,
ele me respondeu: “tudo menos adulto”. Eu
fiquei pensando que na verdade não há mais
adultos no mundo. Os pais querem ser adolescentes. Olha
o jeito que eu estou me vestindo! Como se fosse um emo.
As crianças querem ficar, no máximo, na
adolescência. Ninguém quer assumir a responsabilidade.
Passamos aos filhos uma imagem de adultos estressados,
a criança olha para o pai e diz “Meu Deus,
eu não quero ser assim!”. E o pai olha pra
si mesmo e diz: “Ah não! Eu não posso
ser isso!”. Estamos todos nos encontrando na adolescência.
Alberto
Goldin:
Pais
podem ser rígidos, severos, permissivos, há
todos os tipos de pais. Mas a possibilidade criativa dos
filhos surge do desejo, da vontade, do prazer em transformar
determinado objeto. A diferença mais marcante que
eu vejo entre a juventude da minha época e a de
agora é que atualmente há muitos jovens
sem desejo, jovens que não querem nada. A realidade
pode estar distribuída entre pais que não
exigem, entre sujeitos em que não se reconhecem
talentos, ou de questões ligadas à vida
adulta quando ninguém quer ser adulto; mas para
mim, a patologia da época, a patologia do jovem
é a falta do desejo. Um jovem que gosta de algo:
música, cozinhar, desenhar, esporte, é um
sujeito que tem ao menos um caminho de ter prazer fora
da sexualidade. Eu pergunto se, na verdade, este jovem
sem desejo é produto de um planeta sem esperança,
de uma política corrupta e sem patriotismo, sem
honestidade. A falta de desejo propicia à busca
de drogas e álcool, não que as drogas sejam
o que produz a falta de desejo, mas é a falta de
desejo que faz com que as drogas surjam como um o desejo
químico que permita que se sintam minimamente estimulados
ou minimamente entusiasmados com algum aspecto da realidade.