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Líquido e certo
Alberto Goldin, Ana Beatriz Silva, Içami Tiba, Fabrício Carpinejar e Zíbia Gasparetto falam sobre a juventude na atualidade.
 
 
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O jovem na ordem do dia
Por Ane Aguirre
 


[Foto: Sergio Fonseca]

Domingo de sol na Bienal do Livro. Um debate no auditório Machado de Assis, Riocentro reuniu convidados muito diferentes para falar do tema Líquido e certo - o jovem na ordem do dia. Abaixo, algumas falas capturadas:

Zíbia Gasparetto:
Meu nome é Zibia Gasparetto, eu sou médium, eu sou escritora, eu sou empresária, eu sou várias coisas, mas inclusive uma pessoa que busca viver melhor, a tornar a nossa vida mais alegre, mais feliz, mais produtiva. Os pais desejam que seus filhos sejam “um bom rapaz”, “uma boa moça”, mas para isso é preciso que os pais sejam bons.

Ana Beatriz Silva:
Ser jovem hoje em dia é muito difícil. O mundo que estamos dando para eles é pior, mais competitivo, com mais exigências. Os jovens estão ficando doentes muito mais cedo. É preciso ensinar o jovem a ser criativo. A criatividade hoje é a matéria prima da nova economia que está aí. Não adianta o jovem estar muito bem formado, muito bem estruturado, se ele não tiver capacidade para transformar todo o arsenal de informação que foi dado para fazer descobertas, posicionamentos que sejam alternativos. Para ser criativo não basta a informação, precisa se ter paixão pelo que se faz. É preciso identificar o talento especial que ele tem, desde cedo.

Içami Tiba:
Nós deixamos de ponta-cabeça a educação. Acabamos com o machismo, a mulher cresceu, começou a trabalhar, começou a dizer para o marido “não” (olha que coisa feroz!). Então hoje existem homens largados, homem que ninguém quer (antigamente era a mulher largada). Antes, tínhamos a imagem do macho alfa, aquele que manda (nosso pai): paciência curta, voz grossa e mão pesada. Naquele tempo, ele comia a melhor parte. Por exemplo, o frango: peito, coxa, asa e pescoço. Quem comia peito e coxa? O pai. Sobrava o que para nós (filhos)? Asa e pescoço. Aí a nossa geração cresceu e passou a pensar: "puxa, eu quando tinha sua idade não podia falar, não podia isso, não podia aquilo, pois então os meus filhos vão comer peito e coxa!". Novamente: sobrou o que pra nós? Então nós somos uma geração de ferrados criados a asa e pescoço e estamos comendo ainda asa e pescoço. Onde foi que nós nos perdemos que de tanto amar os filhos querendo dar a eles autonomia, nós fizemos das vontades irracionais a soberania? Não existe "aborrecente" a menos que ele já tenha sido criOnça.

Fabrício Carpinejar:
Eu não sou tão pessimista. Eu pegava uma parte mais nobre da carne, eu não sou dessa geração ferrada. Talvez eu seja a geração que ferra. Vou citar um exemplo do meu cotidiano. Eu sou poeta, cronista, eu tenho 11 livros publicados, sou pai de dois filhos, tenho 34 anos. Eu estava no hotel com minha filha e ela disse: "acabou a água". Eu respondi: "pega da torneira". Óbvio que eu quis ser avarento, mas eu também não estava com vontade de ir até lá pedir água... a gente já estava saindo! Na hora de pagar a conta eu perguntei a ela quanto a gente tinha consumido e ela respondeu: "foram três águas e uma da torneira". Eu fiquei constrangido porque eu queria defender uma imagem da família. Mas era ridículo eu ficar constrangido. Eu devia ter dito: "sim, uma água da torneira!" Porque eu acho que na nossa própria relação com o dia-a-dia nós também precisamos da água que não é filtrada, também precisamos das impurezas e dos defeitos.

Eu perguntei para o meu filho o que ele quer ser quando crescer, ele me respondeu: “tudo menos adulto”. Eu fiquei pensando que na verdade não há mais adultos no mundo. Os pais querem ser adolescentes. Olha o jeito que eu estou me vestindo! Como se fosse um emo. As crianças querem ficar, no máximo, na adolescência. Ninguém quer assumir a responsabilidade. Passamos aos filhos uma imagem de adultos estressados, a criança olha para o pai e diz “Meu Deus, eu não quero ser assim!”. E o pai olha pra si mesmo e diz: “Ah não! Eu não posso ser isso!”. Estamos todos nos encontrando na adolescência.

Alberto Goldin:
Pais podem ser rígidos, severos, permissivos, há todos os tipos de pais. Mas a possibilidade criativa dos filhos surge do desejo, da vontade, do prazer em transformar determinado objeto. A diferença mais marcante que eu vejo entre a juventude da minha época e a de agora é que atualmente há muitos jovens sem desejo, jovens que não querem nada. A realidade pode estar distribuída entre pais que não exigem, entre sujeitos em que não se reconhecem talentos, ou de questões ligadas à vida adulta quando ninguém quer ser adulto; mas para mim, a patologia da época, a patologia do jovem é a falta do desejo. Um jovem que gosta de algo: música, cozinhar, desenhar, esporte, é um sujeito que tem ao menos um caminho de ter prazer fora da sexualidade. Eu pergunto se, na verdade, este jovem sem desejo é produto de um planeta sem esperança, de uma política corrupta e sem patriotismo, sem honestidade. A falta de desejo propicia à busca de drogas e álcool, não que as drogas sejam o que produz a falta de desejo, mas é a falta de desejo que faz com que as drogas surjam como um o desejo químico que permita que se sintam minimamente estimulados ou minimamente entusiasmados com algum aspecto da realidade.

Publicado em 17.09.2007
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