Bienal do Rio: três filas estavam formadas em frente
ao auditório Machado de Assis, às 17 horas
desta terça-feira. Uma para portadores dos convites
azuis da Embratel, outra para as pessoas que já
tinham retirado sua senha e outra para o público
que não se importaria em assistir de pé
ao Encontro de Mestres - Oscar Niemeyer e Ricardo Legorreta.
Bom humor não faltou ao público, especialmente
aos portadores das mãos vazias de senhas e convites:
"É para ver o Niemeyer, então vale
à pena", dizia sorrindo uma das moças
da terceira fila, enquanto o moço alto brincava
dizendo que ele devia estar na fila dos idosos porque
já tinha 55 anos. Muito pouco, menino, se comparar
aos cem anos que completará um dos mestres. Mas
antes mesmo que fossem abertas as portas do auditório,
a notícia já corria: "Ele não
virá". Imposssível, alguns incrédulos
afirmavam que ele já estava ali no Riocentro. Por
via das dúvidas os crédulos permaneceram
e as filas aumentaram. De gente e de expectativas. Quando
a entrada foi liberada, a fila era uma só entre
crédulos e incrédulos e todos já
tinham certeza pois tinham visto entrar Ricardo Legorreta,
André Corrêa do Lago e Caíque Niemeyer,
representante do mestre Oscar.
Quem
não desistiu até este momento, ganhou muito
com o encontro. A ausência foi lida em bilhete límpido
enviado por Niemeyer: "Gostaria de estar presente".
E de alguma forma ele estava. Não apenas pela presença
de seu neto, ou pelo belíssimo livro de André
Corrêa do Lago: Oscar Niemeyer - Uma Arquitetura
da Sedução, ou pela exposição
multimídia organizada no estande da Embratel. O
arquiteto estava presente naquela simples expectativa
que cada um trouxe consigo para o Riocentro - tão
de acordo com a fala do mestre na voz de Caíque:
"Ao meu ver, a vida é mais importante do que
a arquitetura. O nosso empenho, no momento, é acabar
com o homem especialista, que pouco lê e se interessa
apenas pelos assuntos da profissão, alheio aos
problemas da vida, a esta miséria e violência
que se multiplicam por toda a parte".
O
"nosso empenho" acabava por incluir quem estava
de pé no fundo da sala, que dividida ao meio por
um biombo muito bonito, ficava menor, mas não menos
acolhedora a quem não estivesse alheio ao discurso.
Por fim, mestre Oscar também estaria presente na
voz de mestre Ricardo que soube preencher olhos e ouvidos
com sua arquitetura para os que vivem, para os que ocupam
o espaço, para os que precisam da luz da janela
durante uma refeição. Legorreta pede perdão
por não falar português e pede perdão
para fazer uma correção ao que dissera André
Corrêa sobre Brasil e México em sua apresentação:
"Não somos dois países interessantes:
somos os melhores países do mundo". Foi imediatemente
perdoado com aplausos.
Graças à vida com seu pai que o levou por
todo o México, Legorreta se acostumou a ver uma
arquitetura que é feita pelo povo, - pessoas que
não são arquitetos - uma arquitetura de
mistério e luz, que não necessita de determinadas
tecnologias: "Se eu pergunto a essas pessoas porque
abrem uma janela em determinado lugar, elas me respondem:
porque por ali entra o sol quando tomo café".
Essa é a arquitetura humana.
André
Corrêa do Lago observa que tanto Legorreta quanto
Niemeyer dialogam com um público amplo e não
se dirigem apenas a outros arquitetos. Legorreta afirma
que seu trabalho é dirigido às pessoas que
vão viver nos espaços: "Me preocupa
quando minha arquitetura agrada a outros arquitetos demasiadamente
". Arquitetura é uma profissão difícil
e precisa mesmo ser difícil, as coisas difíceis
são as boas. Ele lembra que "Deus nos deu
oportunidade extraordinária de melhorar sua obra;
quase sempre a perdemos", referindo-se à necessária
relação da arquitetura com a natureza. Para
Legorreta Brasil e México possuem uma vantagem
sobre os países mais desenvolvidos, ambos contam
com a imaginação dos pobres. Com muito dinheiro
é mais fácil fazer uma arquitetura que não
respeita a natureza e que não seja sustentável.
Como nós não temos dinheiro, precisamos
observar a posição do sol antes da construção,
ao contrário dos países ricos que podem
deixar que entre o sol e o calor para depois inventar
sistemas de refrigeração.
As pessoas e suas expectativas não lembravam mais
do desenho das filas ao saírem do auditório
e tomarem o caminho de casa. No caminho de volta nos perguntávamos
de que eram feitas as nossas construções
e de quantas janelas precisaríamos para iluminar
nossos sonhos.
Os livros:
- Oscar Niemeyer - Uma Arquitetura da Sedução
- Ricardo Legorreta - Sonhos Construídos
Coleção Educação do Olhar,
criada pela BEI Editora e patrocinada pela Embratel. De
formato diferenciado, os livros propõem uma nova
maneira de leitura, cada volume é composto por
dois cadernos, com texto e fotografias, que devem ser
abertos simultaneamente.
Exposição multimídia:
No espaço, amplo e moderno, projetado pelo arquiteto
Álvaro Razuk, a Embratel apresenta uma exposição
high tech, com visualização em touch-screen,
dos principais trabalhos dos dois arquitetos ao longo
de suas carreiras, além de disponibilizar, em primeira
mão, o conteúdo dos novos livros. A exposição
utiliza recursos multimídia, aliando a tecnologia
da Embratel ao incentivo à cultura.