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Questão de intimidade
Por Ane Aguirre
[Kledir Ramil - Foto: Sergio Fonseca]

O que poderia unir num papo de café três escritores como Santiago Nazarian, Cristovão Tezza e Kledir Ramil? A intimidade humana, diria alguém. A interiorização na produção literária. Romantismo, objetividade e subjetividade, certo? Bem, este era o tema do último debate de terça-feira no Café Literário. No entanto, as diferenças pedem licença para sentar à mesa. Cristóvão, autor de vários livros, publicou em 2006 O filho eterno, um romance que aborda a relação entre pai e filho com síndrome de Down. Kledir Ramil reuniu suas crônicas nos livros Tipo assim e Pai invisível. Nazarian está a caminho de seu quinto romance depois de ter publicado Mastigando humanos em 2006. A mediadora, Regina Zappa procura na construção dos personagens e nos traços de exposição da intimidade algum elo entre os escritores. Será mesmo que tal ligação pode ser feita?

O cotidiano é a marca de Kledir que tem na sua escrita uma linguagem informal: "Eu escrevo como se estivesse falando". São histórias dos filhos, da casa, das brincadeiras em família. Tudo num tom divertido e solto. Que intimidade ele expõe? A intimidade das crônicas, aquela que permite uma identificação imediata entre leitor e texto. Kledir Ramil é músico, sua relação com a escrita começou nas letras de música que compunha. Escrever prosa deu a ele um sentimento de liberdade muito grande porque não precisava mais se preocupar com a métrica e a prosódica. No entanto ainda é o som das palavras que dão o tom de suas linhas: "Eu leio escutando os sons; por causa do som o meu texto é fluido".

[Cristovão Tezza - Foto: Sergio Fonseca]Características autobiográficas são encontradas no último romance de Tezza, que assim como o protagonista, tem um filho com síndrome de Down. A exposição da intimidade foi tratada com cuidado não apenas pela escolha da terceira pessoa, mas também pela seleção de personagens, dando foco apenas em pai e filho, evitando expor os demais. Ele nunca teve problemas ou precisou tomar cuidado com sua exposição até publicar este último romance, especialmente por viver em Curitiba, classificada por ele como uma cidade tímida. Acredita que na construção literária deve-se descartar um tipo de intimidade que seja irrelevante, a intimidade só tem sentido quando há nela algo a ser compartilhado.

[Santiago Nazarian  - Foto: Sergio Fonseca]Santiago Nazarian certamente não é um jacaré, nem se parece com um. Mas que intimidade ele expõe em seus romances? Nenhuma. "Eu faço ficção", responde com aquela naturalidade que lhe cai tão bem. A intimidade aparece de uma forma tão transformada em seus livros que já nem se poderia chamar de intimidade, ele passa longe dessas questões sobre exposição, pelo menos no que se refere ao seu fazer literário, seu prazer é simplesmente contar histórias. Nazarian lembrou de uma observação de um escritor a respeito de sua formação: "Publicidade é um curso que não tem compromisso com a verdade". Ele sorri e afirma que é isso mesmo.

Eu sorrio e concluo que preciso de mais um café. E a conta.

Publicado em 20.09.2007
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