O que poderia unir num papo de café três
escritores como Santiago Nazarian, Cristovão Tezza
e Kledir Ramil? A intimidade humana, diria alguém.
A interiorização na produção
literária. Romantismo, objetividade e subjetividade,
certo? Bem, este era o tema do último debate de
terça-feira no Café Literário. No
entanto, as diferenças pedem licença para
sentar à mesa. Cristóvão, autor de
vários livros, publicou em 2006 O filho eterno,
um romance que aborda a relação entre pai
e filho com síndrome de Down. Kledir Ramil reuniu
suas crônicas nos livros Tipo assim e Pai invisível.
Nazarian está a caminho de seu quinto romance depois
de ter publicado Mastigando humanos em 2006. A mediadora,
Regina Zappa procura na construção dos personagens
e nos traços de exposição da intimidade
algum elo entre os escritores. Será mesmo que tal
ligação pode ser feita?
O cotidiano é a marca de Kledir que tem na sua
escrita uma linguagem informal: "Eu escrevo como
se estivesse falando". São histórias
dos filhos, da casa, das brincadeiras em família.
Tudo num tom divertido e solto. Que intimidade ele expõe?
A intimidade das crônicas, aquela que permite uma
identificação imediata entre leitor e texto.
Kledir Ramil é músico, sua relação
com a escrita começou nas letras de música
que compunha. Escrever prosa deu a ele um sentimento de
liberdade muito grande porque não precisava mais
se preocupar com a métrica e a prosódica.
No entanto ainda é o som das palavras que dão
o tom de suas linhas: "Eu leio escutando os sons;
por causa do som o meu texto é fluido".
Características
autobiográficas são encontradas no último
romance de Tezza, que assim como o protagonista, tem um
filho com síndrome de Down. A exposição
da intimidade foi tratada com cuidado não apenas
pela escolha da terceira pessoa, mas também pela
seleção de personagens, dando foco apenas
em pai e filho, evitando expor os demais. Ele nunca teve
problemas ou precisou tomar cuidado com sua exposição
até publicar este último romance, especialmente
por viver em Curitiba, classificada por ele como uma cidade
tímida. Acredita que na construção
literária deve-se descartar um tipo de intimidade
que seja irrelevante, a intimidade só tem sentido
quando há nela algo a ser compartilhado.
Santiago
Nazarian certamente não é um jacaré,
nem se parece com um. Mas que intimidade ele expõe
em seus romances? Nenhuma. "Eu faço ficção",
responde com aquela naturalidade que lhe cai tão
bem. A intimidade aparece de uma forma tão transformada
em seus livros que já nem se poderia chamar de
intimidade, ele passa longe dessas questões sobre
exposição, pelo menos no que se refere ao
seu fazer literário, seu prazer é simplesmente
contar histórias. Nazarian lembrou de uma observação
de um escritor a respeito de sua formação:
"Publicidade é um curso que não tem
compromisso com a verdade". Ele sorri e afirma que
é isso mesmo.
Eu sorrio e concluo que preciso de mais um café.
E a conta.