No encerramento da série Amigos
para sempre, a mediadora Regina Zappa conversa
sobre João Cabral de Melo Neto com José Castello
, escritor e crítico literário que está
lançando pela Record o livro Literatura na poltrona,
uma reunião de quinze ensaios que tem como idéia
central um convite para que abandonemos um pouco a condição
de estudiosos da literatura e voltemos à relação
com os livros, como leitores mesmo. Isto porque com o passar
do tempo a literatura passou a ser objeto de estudo profundo
até chegar aoo ponto de estar deitada no divã
para ser analisada. Na verdade, é uma posição
contrária ao que deve ser. É preciso que a
literatura volte a ocupar o lugar que realmente lhe cabe,
somos nós - os leitores - que devemos estar no divã
para que as grandes obras de ficção nos interpretem.
Sobre
João Cabral, Castello está relançando
o livro que foi publicado em 1996, com um adendo que o enriquece.
O homem sem alma é resultado de 23 encontros entre
o jornalista e o poeta nos anos de 1991 e 1992. No entanto,
José Castello salienta que nesses encontros ele não
tinha a intenção de perseguir Cabral, mas de
seguir ao lado dele; não estava lá para fazer
perguntas, mas para ouvi-lo. O livro é a transcrição
de um caderno de notas que levava consigo aos encontros e
usava para anotar suas impressões e algumas confissões
que o poeta fazia desde que desligasse o gravador.
Com
o aparelho desligado João Cabral falava de sua solidão,
da velhice, dos momentos de tontura por causa dos medicamentos
e da depressão que ele negava: "não tenho
depressão, tenho melancolia". O lugar comum sobre
Cabral é o fato de ser frio e objetivo. Mas isso não
é inteiramente verdade. Há algo escondido em
sua poesia que só uma leitura atenta pode perceber.
Catello se irrita com a idéia de enquadrar Cabral nesta
poesia objetiva. Há na sua poesia uma grande luta interior,
para ele a poesia de João Cabral seria um exercício
de contenção, como uma barreira em que o conflito
se faz presente e emociona. Como um homem que tinha sentimentos
à flor da pele, evitava ler (especialmente poesia)
porque sempre chorava. Então, suas leituras eram sobre
tratados de história e geografia. Por conta de suas
emoções muito afloradas, ele mesmo vendeu a
idéia de que era um homem sem alma.
Mas
como chamar os jovens a ler Cabral? Castello observa que o
mundo em que estamos vivendo é muito pragmático
e dogmático. Há uma tendência de querer
ensinar como fazer tudo e o que se ensina hoje a respeito
de literatura é muito chato.Quando amarramos o leitor
dentro de certas regras, roubamos sua liberdade. Sem liberdade
ninguém se torna leitor. Os dogmas da religião
e da politica pertencem ao mundo das certezas inabaláveis;
a literatura, ao contrário, está no território
das incertezas. Cabral não é um poeta difícil.
É um poeta sofisticado. Quando se começa a ler
sua poesia há o risco de nunca mais conseguir parar.
Para Castello ele já se tornou leitura - não
de estimação - de obsessão.
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