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Na poltrona com Cabral e Castello
Por Ane Aguirre
[Foto: Sergio Fonseca]
No encerramento da série Amigos para sempre, a mediadora Regina Zappa conversa sobre João Cabral de Melo Neto com José Castello , escritor e crítico literário que está lançando pela Record o livro Literatura na poltrona, uma reunião de quinze ensaios que tem como idéia central um convite para que abandonemos um pouco a condição de estudiosos da literatura e voltemos à relação com os livros, como leitores mesmo. Isto porque com o passar do tempo a literatura passou a ser objeto de estudo profundo até chegar aoo ponto de estar deitada no divã para ser analisada. Na verdade, é uma posição contrária ao que deve ser. É preciso que a literatura volte a ocupar o lugar que realmente lhe cabe, somos nós - os leitores - que devemos estar no divã para que as grandes obras de ficção nos interpretem.

Sobre João Cabral, Castello está relançando o livro que foi publicado em 1996, com um adendo que o enriquece. O homem sem alma é resultado de 23 encontros entre o jornalista e o poeta nos anos de 1991 e 1992. No entanto, José Castello salienta que nesses encontros ele não tinha a intenção de perseguir Cabral, mas de seguir ao lado dele; não estava lá para fazer perguntas, mas para ouvi-lo. O livro é a transcrição de um caderno de notas que levava consigo aos encontros e usava para anotar suas impressões e algumas confissões que o poeta fazia desde que desligasse o gravador.

Com o aparelho desligado João Cabral falava de sua solidão, da velhice, dos momentos de tontura por causa dos medicamentos e da depressão que ele negava: "não tenho depressão, tenho melancolia". O lugar comum sobre Cabral é o fato de ser frio e objetivo. Mas isso não é inteiramente verdade. Há algo escondido em sua poesia que só uma leitura atenta pode perceber. Catello se irrita com a idéia de enquadrar Cabral nesta poesia objetiva. Há na sua poesia uma grande luta interior, para ele a poesia de João Cabral seria um exercício de contenção, como uma barreira em que o conflito se faz presente e emociona. Como um homem que tinha sentimentos à flor da pele, evitava ler (especialmente poesia) porque sempre chorava. Então, suas leituras eram sobre tratados de história e geografia. Por conta de suas emoções muito afloradas, ele mesmo vendeu a idéia de que era um homem sem alma.

Mas como chamar os jovens a ler Cabral? Castello observa que o mundo em que estamos vivendo é muito pragmático e dogmático. Há uma tendência de querer ensinar como fazer tudo e o que se ensina hoje a respeito de literatura é muito chato.Quando amarramos o leitor dentro de certas regras, roubamos sua liberdade. Sem liberdade ninguém se torna leitor. Os dogmas da religião e da politica pertencem ao mundo das certezas inabaláveis; a literatura, ao contrário, está no território das incertezas. Cabral não é um poeta difícil. É um poeta sofisticado. Quando se começa a ler sua poesia há o risco de nunca mais conseguir parar. Para Castello ele já se tornou leitura - não de estimação - de obsessão.

Publicado em 23.09.2007
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