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Beatriz Resende conversa com Cecília Giannetti, Ricardo Noblat, Ricardo Neves e Dodô Azevedo sobre literatura na internet.
 
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Na Rede
Por Ane Aguirre
[Hotel Hell - Foto: Sergio Fonseca]

Sábado na Bienal do Livro. No auditório Clarice Lispector o debate foi sobre Literatura em rede a revolução na Internet. A mediadora, Beatriz Resende conversou com Cecília Giannetti, Ricardo Noblat, Ricardo Neves e Dodô Azevedo.

Na tarde anterior, a escritora Cecília Giannetti, autora de Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi, já havia mostrado indícios de como seria sua participação. E não deu outra. Disse a que veio ao descer as escadas com o microfone e o livro Hotel Hell de Joca Reiners Terron: isto é um livro, mas era um blog. Renovou a promessa de pagar o almoço caso alguém provasse que um blog tem um formato tão diferente que não possa ser publicado. A platéia apalpou o objeto e o fez passar de mão em mão enquanto Cecília lia trechos do que poderia ser o blog de Kafka: "Perdi ociosamente a manhã dormindo e lendo jornais". É um diário do escritor. Ela volta a afirmar que não existe literatura de internet, se existir algo que não possa ser transposto para livro, então teremos um produto específico de internet. Mais tarde, já sentada à mesa junto aos demais, salientou: existem blogs literários com bom conteúdo e outros com conteúdo ruim; nada impede que qualquer um deles seja publicado em papel, evidentemente o que é blog ruim vai ser um livro ruim.

[Cecília Giannetti - Foto: Sergio Fonseca]Noblat, que mantém um ótimo blog sobre política, apresentou a imagem de sua neta ainda em gestação para ilustrar como será o mundo de Luana. Expôs alguns números que provocaram espanto: a telefonia fixa levou 74 anos para atingir um milhão de usuários, a Internet levou quatro anos para atingir a mesma marca. Os brasileiros ficam mais horas conectadas (cerca de 19h por mês) do que franceses e japoneses, o que tem a ver com o nosso espírito gregário: nosso jeito de ser, de sentar num bar e chamar pessoas para conversar, puxar assunto com desconhecidos, fazer amigos, bater papo. Os blogs surgiram nos Estados Unidos há dez anos, eram 36 milhões há um ano, hoje são 75 milhões e possivelmente sejam 100 milhões antes do final do ano. Para Noblat não resta dúvida, a geração de Luana não vai ler jornal em papel e sim na tela do computador.

Dodô Azevedo, professor e escritor, mencionou a pesquisa feita na Inglaterra que revela que o grande sonho dos jovens é ser escritor. Ele pergunta o que é ser escritor? Um escritor é quem publica ou quem escreve bem? Acredita que pode haver um bom escritor que jamais tenha publicado um livro e mantenha sua escrita num blog, por exemplo. No entanto, afirma (para meu completo espanto) que é possível que exista escritores que não leiam livros.

[Ricardo Noblat  - Foto: Sergio Fonseca]Ricardo Neves faz questão de salientar que ele não é jornalista como a maioria das pessoas acredita, na verdade ele tem formação em engenharia. Porém, o que ele faz hoje é “arqueologia reversa do futuro”, e explica: arqueologia levanta hipóteses sobre o passado, se pensarmos em hipóteses sobre o futuro teremos uma arqueologia reversa. Os jornais em geral tratam de assuntos que estão acontecendo no momento. O futuro, aquilo que poderia acontecer não é adequado ao jornalismo a não ser em assuntos econômicos. No entanto, hoje ele mantém sua arqueologia reversa numa coluna da Revista Época. Mas, salienta que para aprofundar um assunto, a tela do computador não serve. Esta é a razão para que ele estenda os assuntos em seus livros, como O novo mundo digital – Você já está nele (o primeiro volume da trilogia Renascença Digital). Concorda com Noblat a respeito do formato do jornal no futuro, mas acredita que o livro impresso jamais vai desaparecer.

Ao conversar sobre o papel do leitor e do comentarista de blogs, Noblat é bem humorado: a maioria dos comentaristas ignoram o que o autor do blog escreveu, usam o espaço de comentários para discutir uns com os outros. No entanto, muitos dos comentários o enriquecem e alguns o fazem até mudar de opinião. Deixa de lucrar o jornalista que não leva este tipo de relacionamento com o leitor em consideração e não é uma questão de humildade: é sabedoria. Acrescenta: “Médicos pensam que são Deus, jornalistas têm certeza”. Para ele, é uma questão de humildade um jornalista ter um blog. Giannetti concorda. Embora hoje seu tempo seja escasso e por essa razão sinta que seria mais confortável não manter o blog, tem certeza que este é um bom caminho para a comunicação com seus leitores.

[Literatura na rede - Foto: Sergio Fonseca]Sobre os direitos autorais na Internet, Ricardo Neves acredita que a possibilidade de marketing seja mais importante que esta preocupação. Um exemplo é um autor americano que convenceu seu editor a fazer um teste, liberando o livro em primeiro lugar na Internet. No primeiro dia foram feitos 50 mil downloads o que deixou o editor nervoso. O escritor manteve o livro na Internet até bater 500 mil. Então o livro foi publicado. As vendas nas livrarias chegaram a cinco milhões. A tese que o autor levanta é que na verdade é preciso primeiro fazer um trabalho de boca, da recomendação das pessoas. Se o produto é bom, é melhor deixar que um bom número de pessoas experimente sem cobrar delas um pagamento pelo trabalho de divulgação que fazem.

As diferenças entre os convidados não impediu a unidade dentro do tema. Jornalistas, escritores, professores, engenheiros, não importa o que sejam, todos estão na rede ou na mira dela.

Publicado em 23.09.2007
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