Sábado na Bienal do Livro. No auditório
Clarice Lispector o debate foi sobre Literatura em rede
a revolução na Internet. A mediadora, Beatriz
Resende conversou com Cecília Giannetti, Ricardo
Noblat, Ricardo Neves e Dodô Azevedo.
Na tarde anterior, a escritora Cecília Giannetti,
autora de Lugares que não conheço, pessoas
que nunca vi, já havia mostrado indícios
de como seria sua participação. E não
deu outra. Disse a que veio ao descer as escadas com o
microfone e o livro Hotel Hell de Joca Reiners Terron:
isto é um livro, mas era um blog. Renovou a promessa
de pagar o almoço caso alguém provasse que
um blog tem um formato tão diferente que não
possa ser publicado. A platéia apalpou o objeto
e o fez passar de mão em mão enquanto Cecília
lia trechos do que poderia ser o blog de Kafka: "Perdi
ociosamente a manhã dormindo e lendo jornais".
É um diário do escritor. Ela volta a afirmar
que não existe literatura de internet, se existir
algo que não possa ser transposto para livro, então
teremos um produto específico de internet. Mais
tarde, já sentada à mesa junto aos demais,
salientou: existem blogs literários com bom conteúdo
e outros com conteúdo ruim; nada impede que qualquer
um deles seja publicado em papel, evidentemente o que
é blog ruim vai ser um livro ruim.
Noblat,
que mantém um ótimo blog sobre política,
apresentou a imagem de sua neta ainda em gestação
para ilustrar como será o mundo de Luana. Expôs
alguns números que provocaram espanto: a telefonia
fixa levou 74 anos para atingir um milhão de usuários,
a Internet levou quatro anos para atingir a mesma marca.
Os brasileiros ficam mais horas conectadas (cerca de 19h
por mês) do que franceses e japoneses, o que tem
a ver com o nosso espírito gregário: nosso
jeito de ser, de sentar num bar e chamar pessoas para
conversar, puxar assunto com desconhecidos, fazer amigos,
bater papo. Os blogs surgiram nos Estados Unidos há
dez anos, eram 36 milhões há um ano, hoje
são 75 milhões e possivelmente sejam 100
milhões antes do final do ano. Para Noblat não
resta dúvida, a geração de Luana
não vai ler jornal em papel e sim na tela do computador.
Dodô Azevedo, professor e escritor, mencionou a
pesquisa feita na Inglaterra que revela que o grande sonho
dos jovens é ser escritor. Ele pergunta o que é
ser escritor? Um escritor é quem publica ou quem
escreve bem? Acredita que pode haver um bom escritor que
jamais tenha publicado um livro e mantenha sua escrita
num blog, por exemplo. No entanto, afirma (para meu completo
espanto) que é possível que exista escritores
que não leiam livros.
Ricardo
Neves faz questão de salientar que ele não
é jornalista como a maioria das pessoas acredita,
na verdade ele tem formação em engenharia.
Porém, o que ele faz hoje é “arqueologia
reversa do futuro”, e explica: arqueologia levanta
hipóteses sobre o passado, se pensarmos em hipóteses
sobre o futuro teremos uma arqueologia reversa. Os jornais
em geral tratam de assuntos que estão acontecendo
no momento. O futuro, aquilo que poderia acontecer não
é adequado ao jornalismo a não ser em assuntos
econômicos. No entanto, hoje ele mantém sua
arqueologia reversa numa coluna da Revista Época.
Mas, salienta que para aprofundar um assunto, a tela do
computador não serve. Esta é a razão
para que ele estenda os assuntos em seus livros, como
O novo mundo digital – Você já está
nele (o primeiro volume da trilogia Renascença
Digital). Concorda com Noblat a respeito do formato do
jornal no futuro, mas acredita que o livro impresso jamais
vai desaparecer.
Ao conversar sobre o papel do leitor e do comentarista
de blogs, Noblat é bem humorado: a maioria dos
comentaristas ignoram o que o autor do blog escreveu,
usam o espaço de comentários para discutir
uns com os outros. No entanto, muitos dos comentários
o enriquecem e alguns o fazem até mudar de opinião.
Deixa de lucrar o jornalista que não leva este
tipo de relacionamento com o leitor em consideração
e não é uma questão de humildade:
é sabedoria. Acrescenta: “Médicos
pensam que são Deus, jornalistas têm certeza”.
Para ele, é uma questão de humildade um
jornalista ter um blog. Giannetti concorda. Embora hoje
seu tempo seja escasso e por essa razão sinta que
seria mais confortável não manter o blog,
tem certeza que este é um bom caminho para a comunicação
com seus leitores.
Sobre
os direitos autorais na Internet, Ricardo Neves acredita
que a possibilidade de marketing seja mais importante
que esta preocupação. Um exemplo é
um autor americano que convenceu seu editor a fazer um
teste, liberando o livro em primeiro lugar na Internet.
No primeiro dia foram feitos 50 mil downloads o que deixou
o editor nervoso. O escritor manteve o livro na Internet
até bater 500 mil. Então o livro foi publicado.
As vendas nas livrarias chegaram a cinco milhões.
A tese que o autor levanta é que na verdade é
preciso primeiro fazer um trabalho de boca, da recomendação
das pessoas. Se o produto é bom, é melhor
deixar que um bom número de pessoas experimente
sem cobrar delas um pagamento pelo trabalho de divulgação
que fazem.
As diferenças entre os convidados não impediu
a unidade dentro do tema. Jornalistas, escritores, professores,
engenheiros, não importa o que sejam, todos estão
na rede ou na mira dela.