A programação FLIP 2008

Quarta-feira, 02 de julho

19h
A poesia envenenada de Dom Casmurro
Com Roberto Schwarz
Mediador: Hélio Guimarães
Na conferência dedicada ao homenageado da FLIP, um dos mais importantes críticos em atividade no Brasil e o mais destacado intérprete da obra de Machado de Assis fala sobre Dom Casmurro, por ele considerado “o romance possivelmente mais refinado e composto da literatura brasileira”. Com base em texto inédito, uma versão preliminar do ensaio depois publicado em Duas meninas, Schwarz mostra que uma das armas de que dispõem os narradores de Machado é o preconceito social. Machado teria conseguido iludir o leitor por ser capaz de construir personagens que compartilham seus preconceitos – e Bentinho é um dos exemplos mais bem-acabados desse tipo de conduta.

21:30h
Show de abertura
Com Luiz Melodia

 

Quinta-feira, 03 de julho

10h
Mesa 1 - Primeiro Tempo
Adriana Lunardi, Emilio Fraia, Michel Laub e Vanessa Barbara
Mediador: João Moreira Salles
A heterogeneidade é a marca desta mesa que abre a FLIP. Michel Laub é autor de três romances. Adriana Lunardi é autora de dois livros de contos e estreou no romance com o recente e elogiado Corpo estranho. Vanessa e Emilio, os caçulas da mesa, estréiam em livro nesta sexta edição da FLIP: Vanessa lança uma reportagem sobre o Terminal Rodoviário do Tietê e, junto a Emilio Fraia leva a Paraty a novela escrita a quatro mãos O verão do Chibo. Michel e Adriana têm boa quilometragem em resenhas e cadernos culturais. Vanessa e Emilio são as mais novas “promessas” da literatura brasileira. Embora alguns já tenham passado dos minutos iniciais, a partida para todos segue no primeiro tempo: há muita bola para rolar antes do apito final.

11:45h
Mesa 2 - O Espelho
Elisabeth Roudinesco
Mediador: Eliane Robert Moraes
De Shakespeare a Joyce e Machado de Assis, de Italo Svevo a Clarice Lispector e Philip Roth, são incontáveis os autores que tiveram seus trabalhos esquadrinhados a partir da psicanálise – e a francesa Elisabeth Roudinesco figura entre os nomes mais gabaritados para examinar a relação. Em seu último livro, O lado obscuro de nós mesmos, a autora interpreta a história da perversidade no Ocidente através de suas figuras e personagens emblemáticas, numa incursão pela história e pela e pela literatura que dá a medida de sua envergadura intelectual.

15h
Mesa 3 - Retrato em branco e preto
Carlos Lyra e Lorenzo Mammì
Mediador: Marcos Nobre
As comemorações em torno dos cinqüenta anos da Bossa Nova fazem justiça à importância do movimento, mas correm o risco de tornar-se festivas em excesso. A proposta desta mesa é conferir um caráter mais analítico à efeméride. Co-autor de Três canções de Tom Jobim e do ensaio João Gilberto e o projeto utópicoda Bossa Nova, o crítico Lorenzo Mammì estabelece um paralelo entre as conquistas formais dos artistas e as promessas embutidas no desenvolvimentismo brasileiro. Já Carlos Lyra, nome de proa da Bossa Nova e da música popular brasileira, traz a Paraty a experiência de décadas de banquinho e violão. Autor da autobiografia Eu e a bossa, Lyra fala a partir de dentro e pode afinar este balanço da bossa com doses fartas de histórias e vivências exemplares.

17h
Mesa 4 - Conversa de botequim
Humberto Werneck e Xico Sá
Mediador: Paulo Roberto Pires
Humberto Werneck acaba de publicar uma biografia de Jayme Ovalle – resultado de mais de dez anos de pesquisas sobre o compositor e poeta paraense que foi parceiro de Manuel Bandeira, amigo dos expoentes da geração modernista e adotou os bares da Lapa, no Rio de Janeiro, como morada. Xico Sá, jornalista cearense, colunista da Folha de S.Paulo e notívago contumaz, enverga o figurino de um Ovalle contemporâneo, ao mesmo tempo artista e articulador, bom de papo e querido por todos.

19h
Mesa 5 - Sexo, mentiras e videotape
Cíntia Moscovich, Inês Pedrosa e Zoë Heller (antes era mesa 17)
Mediador: José Luis Peixoto
Em Anotações sobre um escândalo, a inglesa Zoë Heller descreve o envolvimento amoroso de uma professora de 42 anos que se divide entre o papel de mãe de família dedicada e o irrefreado desejo por um garoto de quinze anos. Os dez contos narrados por mulheres de Arquitetura do arco-íris revelam um tema caro a Cíntia Moscovich: o universo feminino, central também em seus romances Duas iguais e Por que sou gorda, mamãe?. Em Nas tuas mãos, romance de Inês Pedrosa, três mulheres de diferentes gerações da mesma família discutem a própria intimidade. “Literatura feminina” é decerto um rótulo ultrapassado, mas poucas escritoras em atividade seriam tão indicadas para mostrar por quê.

[Mesa subsitituída: Tony Judt- Admirável mundo velho
Mediador: Liliam Schwarcz

Em Pós-guerra: História da Europa desde 1945, o historiador da Universidade de Nova York Tony Judt faz uma extensa reconstituição das transformações por que passou a Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial até os anos 2000. Judt conclui que os resultados da reconstrução foram surpreendentes: devastado pela guerra em 1945, o continente emergiu no século xxi combinando recuperação econômica, relativa estabilidade política e um modelo de integração satisfatório. Pela abrangência da proposta e a precisão da pesquisa, o livro de Judt é desde já um marco nos estudos de história contemporânea e serve de mote para uma das conferências mais aguardadas da FLIP.]

 

Sexta-feira, 04 de julho

10h
Mesa 6 - Formas Breves
Ingo Schulze, Modesto Carone e Rodrigo Naves
Ingo Schulze é nome de proa da literatura alemã. Seus contos, já publicados em revistas como Granta e New Yorker, trazem componentes autobiográficos e lidam com experiências do passado recente, na tentativa de abarcar as cicatrizes da Alemanha pós-queda do Muro de Berlim. Nos contos de Modesto Carone, reunidos em Por trás dos vidros (2007), as deformações da realidade também indicam a procura de um modo de expressão para as fraturas de um país politicamente convulsionado. Completa a mesa o também crítico e ficcionista Rodrigo Naves, cujos contos curtos, à maneira de Carone e Schulze, exemplificam à perfeição a máxima de Cortázar: se o romance pode vencer o leitor por pontos, o conto, para funcionar, tem de ganhar por nocaute.

11:45h
Mesa 7 - Ficções
João Gilberto Noll e Lucrecia Martel
Mediador: Samuel Titan Jr.
O cinema de Lucrecia Martel transformou a paisagem criativa latino-americana. Em seus três longa-metragens, O pântano, A menina santa e La mujer sin cabeça, Martel mostra um domínio raro da estrutura narrativa e da construção de diálogos. A quebra da linearidade, a fragmentação do enredo e a construção de uma atmosfera sufocante são alguns dos atributos de seu cinema – destaques numa obra cheia de pontos altos. Na prosa de João Gilberto Noll, diversas vezes adaptada para as telas, os mesmos atributos são evidentes, mas aplicados à forma do conto e do romance. Expandir os limites das linguagens, experimentar com os meios expressivos que conhecem a fundo: eis os objetivos que aproximam os autores neste diálogo que tem tudo para cativar o público em Paraty.

15h
Mesa 8 - Os fuzis
Caco Barcellos e Misha Glenny
Após a publicação de Rota 66, livro que lhe custou oito anos de investigação sobre a polícia paulistana e muitas ameaças, o jornalista Caco Barcellos lançou Abusado, em que expôs a estrutura do tráfico de drogas e o surgimento dos traficantes nos morros cariocas. O tema é um dos focos de McMáfia, do jornalista inglês Misha Glenny. O livro rastreia uma rede mundial de corrupção que reúne, entre outros, os narcotraficantes no Brasil, a escravidão sexual em Israel e o alto escalão de políticos nos Estados Unidos, num retrato inédito do processo de globalização do crime organizado. Em Paraty, Barcellos e Glenny apresentam uma dimensão desconhecida da criminalidade contemporânea.

17h
Mesa 9 - Estética do frio
Vitor Ramil, Nathan Englander e Martín Kohan
Mediador: Samuel Titan Jr.
O argentino Martín Kohan e o americano Nathan Englander ambientaram seus últimos livros na Buenos Aires sob a ditadura militar. O gaúcho Vitor Ramil é autor do ensaio A estética do frio, em que pensa a particularidade da cultura do sul do país em relação ao eixo Rio – São Paulo. Nos ensaios e romances de Kohan, a tentativa de dar sentido a episódios traumáticos da história argentina é uma constante. Nos livros de Englander, a reflexão sobre a identidade judaica norteia a construção do enredo e a interioridade dos protagonistas. Três modos de enxergar a condição periférica, afinidades temáticas e de geração motivam nesta mesa um diálogo que deve consolidar a posição dos autores na agenda cultural brasileira.

19h
Mesa 10 - Veludo Cotelê
David Sedaris
Mediador: Matthew Shirts
Eleito humorista do ano pela Time Magazine e colaborador assíduo da New Yorker, David Sedaris fez escola com seu humor ácido, autobiográfico e politicamente incorreto. Eu falar bonito um dia, que acaba de ser publicado no Brasil, traz textos sobre a vida familiar, a experiência universitária, a mudança para Nova York, as viagens à França. A maneira hilariante de descrever as figuras próximas – o pai que insiste em despertar os filhos para a música, o irmão tosco e truculento, o namorado detalhista e afetado – e a leitura anasalada e monocórdica são marcas registradas do autor que o público poderá conferir em Paraty. Na mediação, o jornalista e historiador americano radicado no Brasil Matthew Shirts, fã declarado de Sedaris.

 

Sábado, 05 de julho

10h
Mesa 11 - Guerra e paz
Chimamanda Ngozi Adichie e Pepetela
Mediador: José Eduardo Agualusa
A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie não pode ser qualificada como autora militante ou defensora de uma prosa “política”. Mas a guerra em Biafra, conflito separatista que dilacerou a Nigéria no final dos anos 60, é tema recorrente em seus livros e fonte de indagação sobre as fraturas na formação de seu país. Na obra do angolano Pepetela, a temática da construção da nação e da identidade nacional é igualmente central. Os escritores falam sobre seus trabalhos e põem em questão a idéia de uma “literatura africana”, mais complexa e multifacetada do que o rótulo simplista pode sugerir.

11:45h
Mesa 12 - A mão e a luva
Neil Gaiman e Richard Price
Richard Price começou a carreira associado ao gênero policial, mas libertou-se do rótulo para firmar-se como um dos principais nomes da prosa de ficção norte-americana. “É exatamente isso que sua linguagem faz: liberta-se”, escreveu o crítico James Wood a respeito de seu último livro, Lush Life, num longo artigo para a New Yorker. Neil Gaiman tornou-se conhecido como quadrinista, mas seu trabalho também ultrapassou classificações fáceis para firmá-lo como um ícone da cultura pop. Price e Gaiman têm em comum a versatilidade – ambos são roteiristas de cinema – e a capacidade de perturbar idéias prontas a respeito da complexidade dos gêneros que praticam.

15h
Mesa 13 - Fábulas italianas
Alessandro Baricco e Contardo Calligaris
Os dois são de origem italiana. Os dois transitam por atividades diversas. E têm ainda afinidades temáticas. Em O conto do amor (2008), estréia de Calligaris no romance, um psicoterapeuta de Nova York vai à Toscana investigar o passado do pai e mergulha no questionamento da própria origem. Nos textos de Baricco, o tema da identidade é igualmente presente: no monólogo Novecentos (1994), por exemplo, o protagonista submerge em um processo de autodescoberta ao cogitar o abandono do navio onde passou toda a vida. Nesta mesa em Paraty, o maior nome da nova literatura italiana e o psicanalista mais atuante na imprensa brasileira mostram até onde vai o diálogo entre fábula e realismo, psicanálise e literatura, pensamento teórico e crítica cultural.

17h
Mesa 14 - Paraíso perdido
Cees Nooteboom e Fernando Vallejo
Mediador: Angel Gurría-Quintana
Os temperamentos são opostos, mas a potência da escrita é a mesma. Irônico e por vezes experimental, Nooteboom percorre como poucos o terreno das indagações de fundo “metafísico”. É o que se vê em diversos livros seus, sobretudo em Paraíso perdido, romance recém-publicado no Brasil cujo título faz alusão ao clássico de John Milton. Vallejo é igualmente irônico, mas sua relação com temas ditos transcendentes é tumultuada: não à toa, a crítica virulenta à Igreja católica é uma das marcas mais visíveis na obra do autor colombiano. As formas opostas de lidar com a dúvida acerca dos destinos do ser humano é o fio condutor desta mesa, que reúne dois dos nomes mais representativos da literatura contemporânea.

19h
Mesa 15 - Shakespeare, utopia e rock’n'roll
Tom Stoppard
Mediador: Luis Fernando Verissimo
Em 1966, aos 29 anos, o dramaturgo Tom Stoppard estreou no teatro com a peça Rosencrantz e Guildenstern estão mortos, protagonizada por personagens secundários da tragédia de Hamlet. O sucesso da montagem alçou Stoppard ao topo da dramaturgia em língua inglesa – posto do qual nunca saiu. Passados quarenta anos, mais de vinte peças, diversos trabalhos para rádio e televisão, um romance e roteiros de cinema, Stoppard figura entre os mais premiados e respeitados dramaturgos do mundo. Em Paraty ele passa em revista sua carreira e fala sobre o processo criativo de peças como The Coast of Utopia (2002), The Real Thing (1982) e a recente Rock‘n’roll (2006), sobre uma banda de rock em Praga cujo comportamento simboliza a resistência ao comunismo.

 

Domingo, 06 de julho

10h
Mesa 16 - Os livros que não lemos
Marcelo Coelho e Pierre Bayard
O psicanalista e professor de literatura da Universidade de Paris Pierre Bayard, autor de Como falar dos livros que não lemos, fez barulho ao defender que não é preciso ler as obras literárias para falar com propriedade a respeito: mais vale, segundo ele, saber o lugar que ocupam em determinado contexto. O crítico cultural Marcelo Coelho, uma das vozes mais versáteis e ponderadas da imprensa brasileira, é o interlocutor perfeito para pôr em perspectiva a afirmação. Visões opostas e complementares, Bayard e Coelho trazem a Paraty doses generosas de erudição e clareza, de ironia e espírito provocador.

11:45h
Mesa 17 - Folha seca
José Miguel Wisnik e Roberto Damatta     (antes era mesa 19)
Veterano da FLIP, Wisnik volta a Paraty neste ano para falar sobre um assunto que a princípio não tem nada de literário: futebol. A princípio, pois o tratamento que concede ao tema em seu mais recente livro, Veneno-remédio, insere-o entre os tópicos de maior ressonância de sua obra: e não apenas no que diz respeito ao aspecto popular e folclorizante do futebol, mas sobretudo no que se refere aos pontos de intersecção com a cultura letrada e à formação do país. São essas também as preocupações que norteiam o trabalho do antropólogo Roberto DaMatta. Em seu livro A bola corre mais que os homens, DaMatta mostra o lugar de honra que o futebol ocupa em sua obra consagrada e inteiramente dedicada a pensar o Brasil.

15h
Mesa 18 - Papéis avulsos
Ana Maria Machado*, Luiz Fernando Carvalho e Sergio Paulo Rouanet
Nesta mesa em homenagem a Machado de Assis, uma mistura de gerações e perspectivas atesta a versatilidade do maior escritor brasileiro. Notório machadiano, Rouanet fala em Paraty sobre a correspondência do escritor, que foi reunida por ele e tem lançamento previsto para este ano. Luiz Fernando Carvalho, responsável por algumas das mais premiadas adaptações da literatura brasileira para o cinema e televisão, fala sobre os desafios de transformar o romance Dom Casmurro na minissérie Capitu. E Flora Süssekind, pesquisadora que conhece a fundo a produção literária brasileira do século XIX, explica a relação entre a obra do maior autor brasileiro e o ambiente político e intelectual em que foi gerada.

*Flora Süssekind que estaria nesta mesa foi substituída por Ana Maria Machado

17h
Mesa 19 - Livro de cabeceira
Convidados da FLIP 2008 lêem trechos de seus livros prediletos

19h - Mesa 20 - (subiu)